sexta-feira, 26 de maio de 2017

Sucessão apostólica


A transmissão da mesma graça de bispos para bispos, começando com os apóstolos - juntamente com a transmissão do poder e da obrigação de preservar o mesmo ensinamento e as mesmas normas sacramentais e pastorais - é chamada sucessão apostólica. De acordo com a medida de seus ministérios mais limitados, todos os sacerdotes de uma dada eparquia recebem, através do bispo da eparquia, essa mesma graça que vem dos apóstolos; com ela recebem o poder e a obrigação de pregar o mesmo ensinamento e preservar a mesma ordem na celebração dos mistérios e no cuidado pastoral das almas, por caminhos que estão em harmonia com a tradição que veio dos apóstolos. A Igreja assim sempre vive espiritualmente pela mesma graça apostólica, e pelo mesmo ensinamento e prática sacramental e evangélica dos apóstolos.

Os bispos são os ramos que, crescendo da mesma raiz apostólica, estendem a graça e o conteúdo da vida apostólica a todos os ramos menores, representados pelos sacerdotes; e a todas as folhas e frutos, representados pelos fiéis. Melhor dizendo, a mesma seiva - isto é, Cristo - expande-se através dos bispos e sacerdotes por toda a árvore da Igreja e é encontrada diretamente em cada um de seus membros. Sem a graça da sucessão apostólica da hierarquia e sem o ensinamento apostólica transmitido juntamente com ela, não haveria cristãos batizados; não haveria comunhão com Cristo na Eucaristia; não haveria conhecimento de Cristo em Sua atividade nos cristãos, sobre como Ele tem sido presente e exercido Sua atividade na totalidade do passado.

O fator interior dessa sucessão é o próprio Cristo e Seu Espírito Santo, mas o fato visível é toda a Igreja em sua expansão no tempo e no espaço, sob o cuidado pastoral dos bispos. John Karmiris diz,
É necessário acrescentar que a sucessão apostólica não está limitada apenas à linha histórica ininterrupta dos bispos ou à sucessão do ensinamento apostólica (successio doctrinae), mas também compreende a sucessão apostólica do serviço santificante e sua dignidade, bem como a contínua e ininterrupta linha de gerações de cristãos de todas as épocas, e a sucessão apostólica de toda a Igreja. A Igreja, depois da morte dos apóstolos, era a portadora principal e geral da apostolicidade e do serviço apostólico, considerando que o Espírito de Pentecostes foi participado não somente aos doze apóstolos, mas a todo o povo de Deus da nova aliança e à Igreja inteira através de multidão de dons sucessivamente transmitidos... Nesse sentido amplo, pode-se dizer que há uma sucessão apostólica de todos os fiéis batizados na Igreja sob a base de seu chamado para preservar a confissão de fé e o ensinamento apostólica por meio de seus vários dons, através dos quais os fiéis participam em certo grau na tríplice dignidade, sob a influência do Espírito Santo, o qual opera na Igreja.
Acerca da sucessão apostólica da hierarquia, há grande evidência desde o começo da Igreja. Clemente de Roma proclama, por exemplo, "Os apóstolos, tendo pregado o Evangelho do Senhor Jesus Cristo a nós; Jesus Cristo o fez da parte de Deus. Cristo portanto foi enviado por Deus, e os apóstolos por Cristo". Então os apóstolos, "pregando pelos campos e cidades... apontaram as primícias [de seus trabalhos], tendo primeiramente os provado pelo Espírito, para serem bispos e diáconos daqueles que iriam posteriormente crer... E depois [os apóstolos] deram instruções, para que, quando estes adormecessem, outros homens aprovados deveriam sucedê-los no ministério". De acordo com Hipólito de Roma, os bispos são "seus [dos apóstolos] sucessores, e participantes nessa graça, sumo-sacerdócio, e ofício de ensinar, bem como reputados guardiões da Igreja". E de acordo com Eusébio de Cesaréia, "os primazes, os juízes e os conselheiros dessa bela cidade [da Igreja] receberam sua missão dos apóstolos e discípulos do Salvador, e desde sua sucessão, crescendo como que de uma boa semente, os líderes da Igreja de Cristo que agora florescem".

Sto. Irineu diz que os apóstolos deixaram bispos como sucessores em seus lugares, e de fato afirma que os sacerdotes também "possuem a sucessão dos apóstolos; aqueles que, juntamente com a sucessão do episcopado, receberam o dom da verdade, de acordo com o beneplácito do Pai".

[...]

Se a preservação e propagação do ensinamento integral de Cristo pertence ao ministério dos postos ordenados, a Igreja Ortodoxa não pode reconhecer como válidas as ordenações de outras Igrejas que alteraram esse ensinamento.

Não pode existir sucessão de graça vindo de bispos que caíram desse ensinamento àqueles que ordenam. De outra maneira, cairíamos num entendimento da graça como algo mágico; não seria mais uma força espiritual unida ao conhecimento de Deus.

- Padre Dumitru Staniloae, Teologia Dogmática Ortodoxa